Amanhã eu talvez saiba o que fazer com esse hoje que não
encontra seu lugar nas minhas gavetas nem nas minhas lembranças, e que ocupa os
hiatos entre as palavras que não digo e os batimentos do meu coração. Amanhã,
hoje não. E o que estou dizendo mesmo? Nada. É que hoje, quase amanhã – porque
fechei as cortinas para assegurar que o dia não comece nem acabe antes de eu
terminar esse texto; para que fique assim, nessa meia luz. É que hoje – nem
ontem nem amanhã, hoje vi o filme Apenas
o fim, e tive vontade de te ligar e ficar em silêncio, apenas para ouvir
tua respiração. Para ter certeza que,
sim, acabou.
E eu sei – ah, como eu sei! – desse silêncio, de tudo que não
escuto diante da tua opção de mudez, que me dilacera aos poucos. Des-pe-da-ça.
Mas, você sabe, eu crio situações por nós dois, problematizo, resolvo. Talvez
eu o faça propositadamente porque o que mais queria era te ouvir, ler, ver,
berrando qualquer coisa. Qualquer coisa. Um grito, um copo quebrado, e o cheiro
de vinho no tapete denunciando a cólera que esteve por ali. Acontece que você
não consegue transformar aquilo em palavra. Aquilo o quê? Nada. Porque talvez
eu precise, na verdade, de alguma palavra amarga que me tire o excesso de doce,
que me faça levantar da cama e me ofereça uma dose de uísque – pura, sem gelo,
por favor!, enquanto caminho pela casa de calcinha, como alguém que desistiu de
temer o frio. Tô falando muito, eu sei. Nada, é verdade. E pare de dizer que eu
faço drama, sou chata, complicada, impulsiva, e várias em uma só. Você não é
nada fácil, também.
Hoje, nem ontem nem amanhã, hoje tive vontade de te ligar,
porque vi coisas tão nossas na tevê se impondo diante de mim transfiguradas no
reflexo dos meus olhos. Ele, você. Ela, eu. O nosso fimsemcomeço. Então fui absorvida pela loucura estranhamente
lúcida quando me senti faltando um pedaço, como uma terceira perna que para nada me servia, e que muitas vezes me
impossibilitava de andar, mas que me fazia tão maior. Você. Ao mesmo tempo em
que me invadiu a vontade de afagar o que me faltava, de beijar a testa daquilo
que deveria estar em mim e que, à revelia, se ausentava. Você.
Você. Você. Você.
Veja bem, meu
bem: eu
havia prometido, para mim, não mais escrever para você, sobre você, em você. Eu
sei. Mas é que não tê-lo aqui tá doendo pra caralho e, você sabe, eu estou
sempre me autossabotando, cutucando minhas próprias feridas com os dedos sujos
– de saudade, de desejo, ou de qualquer outra coisa que se esconda sob as
minhas unhas vermelhas. Você sabe, eu preciso desse negócio de sentir e sentir
e sentir. Eu preciso desse troço bonito de sorrir e ser sorrida. Eu preciso
chorar com coisas lindas, como quando assisti aquela peça de teatro e saí dali
desnorteada com tanta beleza. Mas é preciso uma pausa na dor. E, se não sou eu,
quem o faz? Você? Não. É por isso
que, aqui, nesse parágrafo, eu me despeço de você. Deixo que vás. Repare:
haverá um ponto final, logo adiante. Porque eu preciso usá-lo. E, sim, existe
sempre algo que fica, mesmo quando a gente decidi ir embora. Mesmo quando a gente manda embora, algo fica. Você vai, o amor
fica.
Com o tempo tudo passa, dizem. Pois é, vai passar – não com o
tempo cronológico e compassado dos ponteiros do relógio, mas com o tempo
particular, o meu. Vai passar essa dor filha da puta. Vai passar a saudade, a
vontade de poetizar o teu sorriso e cada mínimo detalhe teu. Vai passar a
vontade de te contar minhas coisas, meus planos e sonhos, e todas as minhas
bobagens. Vai passar você, em mim. O meu amor é imenso, intenso, e não foi teu,
mas será de alguém. Continuo te querendo bem, meu bem, continuo desejando que
sejas muito feliz. Cada possibilidade de um novo amor traz em si os mesmos
clichês e novas possibilidades de dores e sofrimentos. Mas, foda-se, a gente
sobrevive, certo? Guardarei comigo o teu sorriso bonito pra lembrar nos dias
cinzas. Levarei a imagem que você emoldurou enquanto passarinhava ao meu lado. E o que isso significa mesmo? Nada. É que hoje já é quase amanhã e começo acreditar que o tempo fará, de novo, primavera. Porque os meus olhos, outrora castanhos e tristes de saudade, nesse momento sorriem e brilham, verdes.
Amanheceu, e agora? Agora
é o resto das nossas vidas.
E ao coração que teima em bater
Avisa que é de se entregar o viver
[Marcelo Camelo – Pois é]
